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Caos e barbárie como estratégia política do bolsonarismo: não é acaso nem incompetência, é guerra.

O governo Bolsonaro inaugurou uma nova era de absurdos e bizarrices em nosso país.

Não que vivêssemos em uma realidade perfeita antes disso, mas após sua posse, o grau de contradições, declarações desastrosas, equívocos, escândalos e trapalhadas sistematicamente praticadas disparou vertiginosamente, atingindo um patamar sem precedentes. Não há um único dia transcorrido sem ao menos uma grande atração proporcionada por este desgoverno. A credibilidade internacional desmorona; a popularidade do presidente despenca; o custo de vida dispara; a insatisfação popular cresce; a crise institucional se aprofunda; e nenhuma solução parece despontar à vista.

Se por um lado tudo isso pode parecer fruto de pura e total incompetência, por outro, esse modus operandi tem surtido um efeito bastante útil à parcela da classe dominante, que se beneficia imensamente da confusão criada. Todos os dias uma bomba substitui a outra, funcionando como um relógio perfeito, que nunca descansa. E ao final do mês, ninguém sequer se lembra das denúncias que explodiram nos primeiros dias: afinal, “é tanta coisa ao mesmo tempo, não é?”. Várias frentes de luta se escancaram simultaneamente, desorganizando nossa capacidade de reação e hierarquização de pautas e lutas. Bolsonaro usa o caos como máquina de guerra.

Uma enxurrada de escândalos se sucedem. Todo tipo de violação à ordem estabelecida, à normalidade, à ética e à moral, praticada muitas vezes por aqueles que deveriam garantir tais princípios e que, não raro, ocupam altos cargos na escala representativa. Escândalos de corrupção; sonegação de impostos; agressões físicas, verbais e morais; quebra de decoro; desvio de função; demonstração de incompetência, despreparo e uma imensa lista sem fim de absurdos que se sucedem ininterruptamente a todo instante.

A grande questão é: trapalhada ou estratégia? Incompetência ou astúcia? Para tentar responder a este questionamento, um bom caminho é analisar o efeito prático de tantos e tão frequentes absurdos e o que está resultando, objetivamente, deste cenário onde o absurdo virou regra, o humor tornou-se escape; e os memes e o riso substituíram parte da ação direta, objetiva e organizada.

Observando as consequências desta situação, é possível dizer que a banalização do absurdo só tem uma serventia: garantir a manutenção da barbárie e a apatia de uma plateia incrédula, tomada pela sensação de impotência perante a multiplicidade de ataques e retrocessos. Os tais absurdos estão longe de ser pura ‘falta de noção’, mas sim uma opção consciente que se configura enquanto máquina de guerra extramente útil e perigosa que desmobiliza a oposição de forma bastante eficiente. Difícil é manter a sanidade neste cenário. Não é? É de perder as esperanças.

Não que se trate de estratégia consciente e organizada pelo próprio Bolsonaro, cujo grau de estupidez permite torná-lo excelente fantoche, mas à luz dos desdobramentos recentes já é fácil reconhecer que tal estratégia constitui-se como um padrão de ação do atual governo, que tem colhido frutos positivos (apesar dos reveses) e conseguido coesionar parte de sua base mais orgânica por meio da radicalização de seus atos e declarações. Bolsonaro torna-se uma espécie de Hamlet involuntário, com a diferença de que a personagem de Shakespare simulava a própria loucura de forma ardilosa para confundir seus oponentes; já a loucura autêntica de nosso presidente é instrumentalizada de forma ardilosa, mas para os mesmos fins.

Em outras palavras, ao contrário do que muitos podem argumentar, percebe-se que ‘quanto pior, pior’, e que as trapalhadas que alguns caracterizam como ‘burrice’ tem papel estratégico fundamental nas movimentações deste governo, cujo objetivo central é desmontar o Estado brasileiro e rasgar o pacto social firmado pela Constituição Federal de 1988, substituindo-o por um novo, que privilegie formalmente as elites e destrua os direitos históricos da população pobre e trabalhadora, conquistados à duras penas pelo suor e sangue de milhões de vidas que nos precederam.

Logo, nossa tarefa mais imediata deve ser a de “desbanalizar o absurdo” e não apenas aderir (consciente ou inconscientemente) ao discurso que o reforça. Não podemos fomentar aquilo que intencionalmente multiplica a desesperança. Não nos cabe reforçar o cenário de terra arrasada e de que é impossível avançar. Pelo contrário, é hora de nos organizarmos como nunca em nossos territórios, temas e locais de atuação e combater cada um dos retrocessos em todos os planos: jurídico, político, técnico e midiático. É hora de respirarmos fundo e de expulsar o caos de dentro de nós. Hora de colocar a bola no chão e recomeçar o nosso jogo, que nunca parou.

Nossa missão não é apenas resistir, mas alterar a correlação de forças e avançar. Para isso nossa concentração deve ser máxima; prática e teoria devem caminhar juntas; e todo esforço é necessário. Esse é nosso compromisso histórico com as gerações passadas e futuras. Não seremos conhecidos como a geração que só perdeu.

Não podemos deixar que essa onda de absurdos nos desmobilize, pelo contrário, que seja motivo de compreensão dos novos desafios e nos ajude a superar as complexas circunstâncias que se apresentam. Não sejamos ingênuos, nada muda sozinho, nada muda por acaso. Só a luta muda a vida.