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Muita gente tem me procurado em busca de detalhes relativos ao caso do indígena torturado em São Carlos, que teve seu braço decepado após agressões e uma tentativa de latrocínio.

É um caso bárbaro, brutal, que aconteceu em minha cidade, São Carlos, interior de São Paulo, vitimando um familiar de amigos. Para mim, tudo isso é duplamente doloroso, tanto pela proximidade pessoal, quanto por ser um defensor dos direitos humanos, da paz, da diversidade e da tolerância.

Um caso como esse é complexo, exige cuidado e responsabilidade para não colocar nenhuma vida em risco, para não prejudicar ninguém injustamente e para não desviar o foco da questão, que, no momento é reconfortar a vítima e os familiares para que superem o trauma, punir os responsáveis e pensar ações concretas para impedir que casos semelhantes ocorram. A família prefere não se identificar, e me pediu que assumisse o compromisso de colaborar para os encaminhamentos do caso, tanto no âmbito jurídico, como de imprensa, apoios, etc.

A vítima é um rapaz indígena de 39 anos, da etnia pareci, originário da região de Cáceres, no Mato Grosso, que vivia em São Carlos há mais de duas décadas trabalhando como serralheiro. Há cerca de 20 dias, saindo de um bar, um colega de trabalho que estava sob o efeito de drogas e álcool tentou roubar o carro e as ferramentas dele após um desentendimento, e terminou por leva-lo a força pra uma região afastada, com outras duas pessoas, onde ele foi espancado brutalmente com golpes na cabeça e teve seu braço esmagado pela porta do carro diversas vezes enquanto os agressores gritavam: “agora está permitido matar índio, está liberado!”. Quando achavam que já o tinham assassinado, atiraram-no em um local de desova de cadáveres conhecido como “buracão do Zavaglia”.

Após os agressores deixarem o local, o indígena, que havia se fingido de morto, levantou-se e foi para casa por conta própria, desnorteado e assustado. Algumas horas depois foi até a unidade de pronto atendimento mais próxima, que lhe deu uma injeção para dor, realizou curativos e o mandou para casa. No dia seguinte retornou a unidade, pois não suportava a dor em seu corpo e, de lá, foi encaminhado para a Santa Casa de São Carlos, onde já está internado há 20 dias e teve seu braço direito amputado devido a uma necrose.

O boletim de ocorrência só foi registrado muito mais tarde, por temor dos familiares, e mesmo assim de forma incompleta. Nenhuma outra instituição foi ativada, por falta de assistência jurídica à família. Nenhuma autoridade procurou a vítima espontaneamente visando colaborar com a questão. Apenas nos últimos dias (para ser mais exato no dia 15/02) foi que, tomando notícia dos fatos, começamos uma movimentação para auxiliar os devidos encaminhamentos. O mais revoltante é que sabe-se quem é o agressor, e ele continua solto, em liberdade, trabalhando, como se nada tivesse ocorrido. É o Estado sendo duplamente negligente com esse homem: negligenciando sua saúde, pois sua necrose poderia ter sido evitada se diagnosticada a gravidade do ferimento com antecedência; e negligenciando sua segurança, com a impunidade do agressor.

A grande questão é que sabemos não se tratar de um caso isolado. Ele é parte de uma onda de ódio e intolerância que tem varrido o país. Não quer dizer que casos como esse não acontecessem antes, é claro que aconteciam, mas eles tem se intensificado graças a fatores como o clima de polarização que estamos vivendo, a ineficiência do sistema de justiça no nosso país, o tensionamento com relação às minorias e os direitos humanos e a banalização dos discursos de ódio que tem se multiplicado na agenda de políticos populistas.

E aqui é preciso ser claro e categórico: seria leviano dizer que isso é culpa de Bolsonaro, dos bolsonaristas ou da extrema-direita. Isso é uma tragédia, um crime hediondo, um trauma, uma expressão do momento em que vivemos. É desumano se aproveitar de algo semelhante para se beneficiar ou promover politicamente. Não é disso que se trata.

Mas é preciso entender o que está por trás dessa onda de ódio que se multiplica e se intensifica, e o que colabora com ela, para que possamos buscar suprimir suas causas.

Uma das coisas mais graves que vem se estabelecendo como senso comum é essa inversão perversa da realidade que tenta nos fazer crer que as “minorias” seriam privilegiadas ou injustamente beneficiadas por políticas compensatórias como cotas, leis específicas, etc. É o discurso raso, fácil, simplista, que apela para o ‘fígado’ e se beneficia da ignorância e da fata de consciência histórica pra se propagar. É a mesma mentalidade que taxa as denúncias de violência contra essas minorias como ‘mi mi mi’, que diz que todos são iguais, e que não deveriam haver divisões, que índio não precisa de terra indígena, e bla bla bla. É um discurso que cola em quem não consegue perceber as particularidades vividas pelos diversos segmentos da nossa sociedade.

Quando um presidente da república eleito compara indígenas e quilombolas com animais, quando diz que se depender dele “não vai ter demarcação de terras indígenas”, que direitos humanos “é coisa de vagabundo” ele está dando um exemplo pra população, e faz com aquele racismo, aquela homofobia, aquele preconceito presente na mentalidade brasileira, sinta-se mais à vontade para sair à luz do dia, se expressar e vir à tona. E esse tipo de clima faz com que potenciais agressores sintam-se mais confortáveis pra realizar suas agressões, afinal de contas a maior liderança do país é indiferente às dificuldades de determinadas populações e todos sabemos que, dessa forma, elas estão mais vulneráveis e os crimes cometidos contra elas, mais sujeitos à impunidade. Por que um cachorro morto a pauladas causa mais comoção que um jovem negro asfixiado em um supermercado?

Veja bem, não estou culpando o presidente e nem manipulando politicamente os fatos, mas entenda a situação com honestidade. Quando uma pessoa se elege com determinado discurso, ela ajuda a orientar o país e estabelecer determinadas expectativas, minimamente alinhadas com seu discurso. E o discurso que venceu foi de que ou “as minorias se adequam, ou simplesmente desaparecem”. E se adequar, nesse caso, significa aceitar como inevitáveis as violências e as dificuldades específicas pelas quais passam as minorias. E a gente sabe, os números estão aí, na nossa cara. A gente sabe que a violência contra a mulher no Brasil é infinitamente maior que a violência contra os homens; a mesma coisa com os negros, LGBTs e com os índios. É como se essas pessoas fossem mais descartáveis que aquelas dentro do padrão. São as estatísticas que comprovam isso! A cada 2 segundos uma mulher é vítima de violência; nós somos o primeiro país do mundo no ranking de assassinato de transexuais; o número de homicídios de pessoas negras é o DOBRO do número de pessoas brancas; 110 indígenas assassinados em 2017. ENTÃO PARE DE CHAMAR DE MI MI MI A REALIDADE, QUE TRATA AS PESSOAS DE FORMA MUITO DIFERENTE DE ACORDO COM SUA COR DE PELE, GÊNERO, ORIENTAÇÃO SEXUAL E ETNIA.

O povo brasileiro está cheio de ódio, e isso é compreensível, pois nosso país é profundamente injusto. O grande problema é que esse ódio está sendo manipulado e canalizado de forma completamente desonesta e mal-intencionada. Enquanto nós estamos nos matando, aqueles que colaboram para que o Brasil não avance, seja ineficiente, precário e corrupto, estão seguros em seus condomínios, com seus seguranças, vestidos com seus ternos, gravatas, confortáveis em suas peles brancas e macias, vivendo em bairros seguros e tendo acesso a tudo do bom e do melhor.

A agressão contra este indígena é mais um sintoma desta doença social que estamos vivendo, alimentada pela ignorância e instrumentalizada por gente mal intencionada. A agressão em si não foi exclusivamente motivada, ao que tudo indica, por questões étnico-raciais, mas sabemos muito bem, até pelo relato, que nesse caso facilitou a agressão.

O que queremos encaminhar neste caso é:

1) Bem-estar e segurança imediata para a vítima e seus familiares
2) Rápida resolução do caso com punição exemplar dos agressores
3) Tratamento adequado e de qualidade para recuperação da vítima e garantia de seus direitos e benefícios
4) Estabelecer ações e políticas públicas de defesa da população indígena para evitar outros crimes como este se repitam

Esperamos contar com sua ajuda e abaixo segue um link para contribuições voluntárias com o objetivo de ajudar a vítima a adquirir uma prótese mecânica para seu braço e recomeçar sua vida em segurança:

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajude-o-indigena-torturado-a-recomecar-sua-vida

Ficamos à disposição para quaisquer diálogos ou informações.